27.06.26
A história de um atleta não se resume aos minutos disputados em campo. Por trás de cada partida, existem anos de dedicação, contratos, registros profissionais e uma trajetória de trabalho que também precisa ser reconhecida quando chega o momento da aposentadoria.
A história de Lourival Benedito da Silva é um exemplo disso.
Nascido no Recife, em 8 de março de 1960, Lourival construiu uma carreira de destaque no futebol pernambucano e nacional, especialmente com a camisa do Clube Náutico Capibaribe. Meio-campista, chegou ao futebol profissional ainda jovem e vestiu a camisa alvirrubra entre 1979 e 1987, tornando-se um dos jogadores mais importantes de sua geração no clube.
Lourival estreou profissionalmente pelo Náutico em novembro de 1979, em partida contra o Moto Club, pelo Campeonato Brasileiro. A partir daí, iniciou uma relação que marcaria sua carreira e sua história no clube.
Ao longo dos anos, tornou-se referência no meio-campo alvirrubro e acumulou 385 partidas pelo Náutico, número que o coloca entre os jogadores que mais vezes defenderam o clube em sua história. Em levantamentos históricos, Lourival aparece atrás apenas de Kuki entre os atletas com mais jogos pelo time.
Sua passagem pelo Náutico também coincidiu com uma época de grande relevância do futebol pernambucano e brasileiro. O jogador esteve em campo em competições nacionais e estaduais e dividiu o elenco com nomes importantes do futebol da época.
Depois de quase uma década no clube, Lourival seguiu sua carreira. Em 1987, passou pelo Guarani e, posteriormente, atravessou o Atlântico para atuar no futebol português. Defendeu o Rio Ave, entre 1987 e 1989, e o Salgueiro, entre 1989 e 1990. De volta ao Brasil, ainda passou por clubes como ABC, Treze, Jaboticabal, Santa Cruz, Santo André, Taquariense e Blumenau.
Encerrada a carreira como jogador, Lourival não se afastou do futebol.
Preparou-se profissionalmente para atuar como treinador e construiu uma segunda trajetória dentro das quatro linhas, agora à frente das equipes. Seu currículo como técnico inclui passagens por clubes como Taquariense, Cabense, Náutico nas categorias de base, Central, Salgueiro, Sete de Setembro, Picos, Santa Cruz-RN e Juazeiro-BA, entre outros. No Central de Caruaru, participou da campanha que levou o clube ao acesso à Série A1 do Campeonato Pernambucano.
São, portanto, décadas dedicadas ao futebol — primeiro como atleta e depois como treinador.
Apesar de toda essa trajetória, existe uma realidade que muitos profissionais do esporte conhecem apenas quando chega o momento de buscar a aposentadoria: nem todo o tempo efetivamente trabalhado aparece de forma automática no histórico previdenciário.
Essa situação pode ser ainda mais complexa para atletas que construíram suas carreiras em décadas nas quais os registros trabalhistas e previdenciários não possuíam o mesmo nível de organização e integração existente atualmente.
Foi nesse contexto que a trajetória profissional de Lourival precisou ser resgatada também por meio de documentos.
Registros federativos, certidões de federações, contratos e outros documentos relacionados à carreira foram fundamentais para comprovar períodos de atividade profissional que não estavam devidamente refletidos no histórico previdenciário.
Em junho, a Justiça Federal reconheceu o direito de Lourival à aposentadoria.
O caso chama atenção não apenas pela história do ex-jogador, mas também por trazer uma questão relevante para outros atletas que passaram por situações semelhantes: a eventual ausência de recolhimentos previdenciários pelo clube não pode, por si só, apagar do trabalhador o tempo em que efetivamente exerceu sua atividade profissional.
Em relações de emprego, a responsabilidade pelo recolhimento das contribuições previdenciárias é do empregador. Por isso, o trabalhador não deve ser penalizado quando a obrigação que cabia ao clube não foi cumprida corretamente.
Para atletas profissionais de gerações anteriores, essa questão pode ser especialmente importante. Muitas vezes, o desafio não está na inexistência do vínculo ou da atividade, mas na necessidade de reunir documentos capazes de reconstruir uma trajetória profissional que aconteceu há décadas.
No caso de Lourival, a utilização de diferentes fontes de documentação permitiu demonstrar sua trajetória profissional e superar as lacunas existentes nos registros previdenciários.
Esse tipo de situação demonstra a importância de guardar — e, quando necessário, buscar — documentos que possam comprovar a atividade profissional.
Contratos, registros em federações, fichas de inscrição, registros esportivos, certidões, documentos de clubes e outros elementos podem assumir papel fundamental na comprovação do tempo de contribuição.
Para ex-atletas, a carreira pode ter ficado registrada em jornais, súmulas, federações e arquivos esportivos, mesmo quando essas informações não aparecem de maneira completa no cadastro previdenciário.
Para Lourival, a decisão representa mais do que a concessão de um benefício.
Depois de 385 partidas pelo Náutico, passagens por clubes brasileiros e portugueses e uma segunda carreira como treinador, o reconhecimento previdenciário representa também o reconhecimento de uma vida profissional dedicada ao futebol.
A bola parou de rolar há algum tempo, mas a história construída nos gramados continua.
E, no caso de Lourival, essa história agora também está reconhecida no âmbito previdenciário.
Porque aposentadoria não é apenas um benefício. É o reconhecimento de uma trajetória de trabalho.
Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui a análise jurídica individualizada de cada caso.
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